O Blog Além dos Olhos foi criado dia 18 de Março de 2012. Seu principal objetivo é descrever situações do cotidiano que algumas vezes passam despercebidas à olhares superficiais, tanto para quem escreve, como para quem lê. Ao entrar aqui, dará vazão à busca pelo entendimento sem se preocupar se irá encontrá-lo ou não. Cada linha rege a harmonia da dança dos nosso dias.
E que não se prenda em seus conceitos para que seja meu leitor, pois aqui não há uma verdade absoluta, encontre o seu sentido parafraseando significados que nascem no seu interior. Reflita, questione, refute, pense além!
Boa Leitura.

sábado, 23 de novembro de 2013

Assim caminha a humanidade

É mais que evidente, o fato de que nos dias de hoje, o homem está em seu estágio mais elevado no que diz respeito à aquisição de conhecimento e o domínio dos recursos da natureza, o que o proporciona uma série de possibilidades de atuação no mundo em que habita. Acredito que este ainda não é o momento par discutirmos os prós e contras dessa intensa atuação. O fato é que, a produção do conhecimento ocorre porque as coisas aparecem para o homem e ser o ser no mundo com os outros é o que permite as vicissitudes dessa dinâmica.

Diante de tanta produção, diante de tantas respostas solúveis, as perguntas perpetuam e instigam o humano que está sempre caminhando em busca de uma suposta verdade.

Ousadia eu diria, o atrevimento da metafísica de endeusar as verdades, prendendo-se ao unânime, explicitando o conhecimento e não permitindo que o ciclo tortuoso e fundamental do homem, transcorra livremente.
Como já disse Voltolini em Educação e Psicanálise:  “ ....toda visão de mundo é datada e morre em prol de outra que se instala sob o signo de sua crítica...”

Anárquica, a fenomenologia assume a tenuidade das verdades e de forma singular, permite ao homem, atuar em um método de conhecimento sobre sua própria existência.
E assim, desvelando e ocultando o que é produzido empiricamente, o conhecimento tácito se apresenta como o devir que conduz a humanidade.

O conhecimento produz um bombardeio de informações, respostas, teorias e dizeres persuasivos, até mesmo intimidadores. Porém, sempre há espaço para a propriedade, que mesmo sendo frágil, se introduz em meio ao que já está posto, podendo assim, ressignificar as experiências e produzir novas direções à serem percorridas.
Esse movimento, é o responsável pela produção da identidade , a constante imersão e submersão entre propriedade e impropriedade.

Podemos dizer que é inegável a íntima ligação que o sentido possui com a ação, uma vez que este é o fator primordial para que haja o rompimento com a biografia (algo já dado), para que então tenha-se novas significações, experiências e possibilidades de atuação e produção de conhecimento.

Os gritos do conhecimento tácito, silenciam o conhecimento explícito, mesmo que momentaneamente.


E é necessário que seja assim.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Dos abalos temporais


Poesias rabiscadas, trituradas na mente
Que saem da alma e riscam o mundo
Dizeres calados em folhas amassadas
Que enobrecem a lata do lixo

Pessoas que por mais variadas 
Repetem-se no vácuo pútrido das trivialidades
As línguas vencem os dentes
E a sépia pinta os dias

Sentado em pombas mortas
Num mar de repetições
Contemplar a fragilidade
Não mais atinge o querer

E por mais que se saiba não ser dono de si mesmo
Vale debruçar-se por só mais uma valsa
E por mais que a música atordoe em sua dissonância
Vale atirar-se à dança dos nossos dias

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Identidade


E é em você que eu me vejo
No reflexo do meu pulsar
Que te quer em mim
Sendo eu e você mais que um só

Sou aquilo que repito
Sou palavra da tua boca
E olhar do teu querer
Eu me escondo na tua morada

Que é coração meu
E a tua dor eu é que sinto
E o teu sentir eu é que projeto
Sou mais que refrão de teus lábios

E amo-te nas partes de mim que carregas
Repito-me em teu ser
Na poça que inclino o fervor de uma face
És terna regalia do meu desejo


sábado, 21 de setembro de 2013

Educação para a realidade do desejo



Todo aquele que se aventurar no campo educativo, terá que se confrontar, mais cedo ou mais tarde, com a decepção

A educação diz respeito à vida cotidiana das crianças para com os adultos. Diante disso, é impossível que não sejam estabelecidas relações ambivalentes na transitoriedade da criança, que tem seu corpo como alvo das expectativas, medos e frustrações do adulto, que por sua vez está em constante projeção profilática.
Ou seja, a criança deve caminhar pelo mesmo deserto escaldante no qual esteve o adulto, porém , com uma peneira às mãos.
Partindo destas insolúveis dualidades, podemos começar a compreender a dependência evidente do seio da vida, onde a morte opera cautelosamente, aniquilando as possibilidades de uma vida harmoniosa, o que acarreta ao homem,  um constante  desarranjo  consigo mesmo. A todo momento nos depararemos como estando meio fora de foco e reféns das mutações do desejo.
Sendo ser da falta, o humano busca por meio de diversos mecanismos, suturar este corte que é sua essência psicológica, e o faz vulnerável no campo da palavra e da linguagem.
Essa fragilidade é o que irá conduzir a educar, visto que a palavra é a ferramenta educativa por excelência, transmitindo à criança, marcas simbólicas que a possibilitam construir e ocupar um lugar numa história e assim poder se lançar às vicissitudes do desejo.

Porém, a dinâmica entre o educar e o educando, exige um constante jogo de cintura, é preciso estar ciente de que toda visão de mundo é datada, e morre em prol de outra que se instala sob o signo de sua crítica. Assim como acontece com o desejo e o que torna o efeito da palavra que um (educador) dispara sobre o outro, (educando) dependente do sentido estabelecido pelo outro. Assim, não existe caminho a ser traçado, deve-se caminhar, não rumo à uma realidade socialmente estabelecida, mas sim, para a realidade do desejo.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Do prazer imutável





E é no doce desse fruto que se rasga o desejo
Que se atrai íntima e infinitamente
Insolúvel, enlouquece em corpo e mente
Sublimado, áspero, seco e inerente

É Deus da própria  seara
Inunda em beijos, abraços, plenos atritos
Imunda em saudade, vontade e se perde na falta
Na simbiose que entrelaça os quereres

Respirações ofegantes em plena cadência
Roupas ausentes, corpos ardentes
E é no doce desse fruto que os lábios se deitam

Regido em placidez  derivada
Do ápice dos prazeres , dos sonhos mais que palpáveis
Que dançam  a todo instante, além da subversão 

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Educação para quem?


O desejo é o desejo do outro e a educação é um caminho de sublimação das pulsões sexuais, onde estas são direcionadas para um alvo não-sexual, afim de camuflar a neurose  através de objetos socialmente valorizados.
Logo, o transcorrer dessa dinâmica diz respeito ao cotidiano das crianças e as relações que são estabelecidas com os adultos que as cercam. Mais que isso, diz respeito aos sonhos, medos, esperanças e expectativas relativos ao mundo do amanhã.
A realização do desejo recalcado pelo adulto é transferida para o sonho que ele mesmo semeia na criança. Daí, podem derivar as frustrações causadas pela exigência do laço social.  A criança é alienada dos próprios temores, e dessa forma se torna presa fácil para as peripécias do adulto, que utiliza da escola, como um objeto de terceirização dos bons costumes. No mesmo momento em que esta função é atribuída à escola, torna-se impossível para este mesmo adulto, sustentar o fato de que é evidente a impotência, insuficiência e inoperância da função de sua função no âmbito familiar.
Assim, podemos começar a compreender o mecanismo que conduz a busca pelo conhecimento, que se olhado de uma maneira mais incisiva, se mostra como o fruto de um fracasso constante e gradativo, que tenta emergir como pulsão satisfeita no desejo do outro para com o outro.

sábado, 10 de agosto de 2013

Nos vestígios do estágio do espelho


O desejo é o desejo do outro, e não há dúvida de que inicialmente, a pulsão banhada pelo amor, gera um apetite voraz, movido pelo fantasma que atiça a busca do prazer.
Uma vez que o fantasma é idealizado à própria imagem do ser desejante, novamente se faz claro que o homem segue guiado com os olhos tapados pelas palmas de Narciso. Porém, há de se  ressaltar que a fantasia, por mais envolvente e sedutora que seja, carece da textura que só pode ser sentida na realidade. Na ausência dos próprios olhos assim como Édipo, o homem só percebe o que é capaz de tocar e dessa forma, é alienado pelo outro, numa realidade que está apenas dentro de si mesmo. E um dos frutos dessa dinâmica é a frustração, válvula profana que impulsiona a neurose, transferindo para  objeto de desejo, a raiva que o indivíduo sente de si mesmo por não ter sido desejado pelo outro.
Ao desnutrir-se, a pulsão de vida transforma-se em pulsão de morte, numa ferida incurável, que projeta no outro, uma paixão reflexa e turva, mãe do prazer e filha da dor.

sábado, 3 de agosto de 2013

A Religião nos limites da pulsão




O desejo é o desejo do outro, e desde muito cedo essa máxima governa a existência humana. Assumir o processo da castração e dar conta dos resultados que provém deste fenômeno é uma tarefa de extrema exigência e complexidade para o homem, que utiliza de diversos mecanismos para negar essa dinâmica sádica e eterna. Coloco a religião como um processo inconsciente de conformidade e narcisismo, onde o homem é chamado à relação com Deus, numa atitude de abandono que supõe a aceitação de seu limite. Quando Jesus é pregado na cruz forma-se uma relação diretamente proporcional com o bebê que perde a majestade através da dissolução do desejo materno. Pai, por que me abandonaste? Estes movimentos, dão ação à abertura do amor divino, que transforma a morte em vida, quando o homem é conduzido à satisfação de desejos por meio das pulsões, da mesma maneira que a paixão de Cristo salva a humanidade num ideal de plenitude amorosa em que se faz evidente a presença do narcisismo, ao passo que este ser onipresente deseja todo e qualquer indivíduo com o mesmo fervor e intensidade, fazendo com que a falsa sensação de plenitude, disfarce a falta que se manifestará em diversos outros momentos.Da mesma maneira que as desventuras correntes da vida humana são negadas no manto do plano de Deus. Assim, a religião acaba por ser uma maneira pela qual o homem procura mediar suas angústias.


segunda-feira, 22 de julho de 2013

De você e de mim


Basta um toque para que meu corpo fique enlouquecido
Um cheiro para que se inflame minha volúpia
E neste momento desperta-se a mais intensa pulsão
Que é muito mais que prazer

Que me laça, me envolve e anoitece a minha dor
Em tom de calmaria as almas se unem por quase um instante
Quando meus lábios deslizam pelo céu da tua carne
Aos poucos a tormenta se desfaz

E desfruto do doce sabor
Destes sonhos agora passíveis de toda caricia
Desta entrega complacente, terna
Maviosamente intensa

E estes beijos, nem sei onde me levam
E minhas vestes deixo que se rasguem
Nos teus braços que me acolhem por completo
Percorro o caminho que pra sempre será

Muito mais que cumplicidade extrema
O que o tempo não conta
Fiel morada do meu desejo

sábado, 20 de julho de 2013

Pretensão à Psicanálise


O desejo é o desejo do outro e a psicanálise rompe com o habitual, se aventurando em suas tentativas de desvelar o que é reprimido pelo ser desejante. Pois todos somos sujeitos da falta e negamos boa parte dessa ausência que se faz tão presente. Ninguém escapa da condição sedutora dos cuidados maternos, do ser que alimenta, aconchega e dá prazer à seu objeto de plenitude sexual. E no movimento gradativo da castração a majestade perde o trono, dissolvendo-se o desejo e potencializando a rivalidade, a percepção se alterna, os conflitos se fazem presentes e as pulsões tomam novos sentidos. Guiando o inconsciente, Narciso caminha na busca de novos objetos que satisfaçam o desejo deste saber não sabido, que por sua vez, advém do objeto inicial, onde havia a plenitude.

Inúmeras direções à perverter uma existência não tão própria quanto se pensava, e assim, pode-se transpor a barreira imposta pela censura. O desejo toma contato com o fantasma, alvo de sua pulsão, nas lacunas da palavra, que permitem sentido ao absurdo. Na transcrição deste discurso rico, a sobredeterminação empilha as peças que constroem a figura da neurose, que aparece de uma maneira deformada, assim como Narciso aparece no reflexo das águas. E nos apaixonamos pelo ser que representa nós mesmos, que é igual ao ser para quem somos objeto de paixão, somos Eros e somos Tanatos, somos feridas com cicatrizes sempre abertas, e mais que desejo, somos a falta daquilo que nunca tivemos, e talvez nunca tenhamos por completo.